sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Traição.

Paris nunca era a mesma. E nunca seria. Eu amava aquele lugar mais do que qualquer outro e me doía saber que eu estava voltando para minha monótona e cruel realidade.
           
Comecei a reconhecer aquelas esquinas e os becos e o desespero tomou conta de mim. As viagens eram só uma desculpa pra me tirar daquela rotina. Na maioria das vezes funcionava, mas sempre tinha o sofrimento da volta.
           
Resolvi fechar os olhos e os abri novamente somente quando tive a certeza de que o táxi estaria parado no portão da minha casa. Era tudo exatamente como eu me lembrava: o mesmo portão com os cantos enferrujados, a mesmo gato dormindo na sombra da garagem, o mesmo tapete enrolado no batente da porta e o mesmo cheiro de verniz.
            
Fechei a porta com cuidado, pois ele poderia estar dormindo e eu não queria ter que vê-lo acordado assim que chegasse, e me virei. Virei-me e hesitei por uns segundos. Havia, misturado ao cheiro de costume, um novo aroma que aguçou minha imaginação e logo ativou minhas esperanças.
           
Eu sabia o que aquilo significava, mas eu tinha algumas coisas para fazer antes de encarar as conseqüências. Breves, mas tinha. Confirmar minhas suspeitas era a primeira. E não precisei ir muito longe para fazê-lo. Lá, jogadas no chão, estavam roupas femininas que eu, felizmente, não reconhecia como minhas.
          
Nem me dei ao trabalho de olhar pela fresta da porta e fui direto para o banheiro para pegar o que eu não tinha levado comigo durante minha viagem. Depois passei no closet checando se deixava ali alguma coisa essencial.
           
Já de volta na sala, peguei um post-it ao lado do telefone, uma caneta no meu bolso, grudei-o na porta e escrevi “Obrigada. N.” Peguei minhas malas, sai, deixei que o gato se esfregasse em minhas pernas, atravessei o jardim e depois passei pelo portão, fechando-o.
           
Coloquei meus óculos de sol, respirei fundo, sorri e, depois de muito tempo sem conseguir fazer isso, comecei a pensar em meu futuro.

Escrito por Hugo Perpetuo.

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