Era como se elas se conhecessem tão bem quanto elas próprias, uma conseguia ver o que se passava por dentro da outra. Nunca soube o que era ou como funcionava, mas sabia que acontecia. As vezes eu tinha a impressão que elas conseguiam conversar só pelo olhar e brigar através de sorrisos. Parecia que elas estavam conectadas além do corpo, além dos hormonios do amor, além de tudo o que eu poderia imaginar. E eu chegava a invejar isso. Por que era uma coisa que dificilmente acontecia, mas com elas parecia acontecer tão espontaneamente que parece que foram destinadas para isso. Ou talvez realmente estivessem.
O fato é que elas não são um casal, digo, não são namoradas, nem são amigas, nem são peguetes, nem são nada, talvez elas sejam tudo, mas é dificil conseguir rotular.
As vezes elas ficavam juntas, as vezes se separavam e ficavam anos sem se ver. Mas sempre tiveram aquela mágica, desde o dia que se encontraram, e era por isso que quando Mariana chegou à mim contando este segredo eu sabia que ela já tinha conhecimento do ocorrido.
E era verdade. Letícia esteve no apartamento de Mariana uma semana depois que ela se feriu, e mais uma vez trocaram olhares que pareciam eternidades, que estavam cheios de saudades e palavras não ditas, porém sentidas. E mais uma vez elas se uniram na cama, e tomaram o café juntas e passaram dias como se fossem amigas ( ou namoradas) inseparaveis com aquele belo e inexplicável relacionamento.
Até o dia, é claro, que Letícia voltasse para mais uma das suas viagens e Mariana voltasse a mais uma das suas aventuras. Não trocavam novidades, não conversavam sobre o futuro, nem sobre trabalhos, nem sobre mulheres, nem sobre a nova linha de maquiagem. Conversavam do que sentiam, conversavam sobre o universo e todas as coisas. Talvez seja isso que as torne especiais, quando estão juntas o mundo some e surge um só delas.
E então, antes eram aqueles olhares de encharcados de saudade agora dão lugar ao sorriso da despedida, mas não a despedida ruim, aquela que nunca terá volta, aquela dolorida de não querer partir, mas sim, aquela que diz "um dia voltaremos aqui e continuaremos" , aquela que sabe que voltará e sabe que será tão bom ( ou talvez melhor) do que a anterior.
E então, naquele momento em que Mariana fechou a porta deixando Letícia voltar ao mundo e voltando ao próprio mundo, ela sabia que estava curada.
E eu sabia, desde o principio que eu não precisaria cuidar das feridas da Mari, sabia que não precisaria abraçá-la ou chorar ao seu lado. Por que ela já havia curado.
... Mas Mariana fez questão de sorrir aquele típico sorriso bobo, sabe aquele? que torna o coração vivo, que transforma o ambiente inteiro, por dentro e por fora, sabe aquele? que chamamos de amor? então.
... Mas Mariana fez questão de me fazer sentir pequeno, de me fazer sentir mortal, de me fazer sentir inveja.
Me aguarde, um dia eu revido.
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