Que com tanto orgulho foi remendando com poemas, aflições e pequenos sonhos junto com um punhado de tecido. Costurava com maior atenção e com um amor que só alguém que se constrói a partir do próprio sofrimento poderia fazer. Amor próprio, diriam aqueles. Para ela se tratava apenas de amor.
(Re) fazer o seu próprio corpo não era uma tarefa fácil, mas era preciso. Afinal de contas todo tecido fica velho, sofrido e cansado. Era preciso um cuidado especial para enfeita-lo com novas cores, novos botões e experiencias jamais comprovadas. Alfinetou-se uma, duas, tres vezes até conseguir costurar o lugar certo e tapar o buraco que cada vez ficava mais profundo.
Para alguns, os velhos trapos, costurar-se a si mesmo era um ato desesperado, quase obsceno, entretanto de coragem, acima de tudo. Não é fácil ser outra boneca. O tempo passa, os tecidos não são mais da mesma cor, do mesmo agrado, da mesma mesmice. As vezes é preciso um jogo de cores diferentes, preto, branco, amarelo, com tons e texturas totalmente novas transformava a vida que tinha naquela boneca com um pouco mais de respeito, de alegria, de novas loucuras e sentimentos distintos. (Re) fazer-se era o ato de apaixonar-se, é amar acima de tudo, aquela que mais precisa ser amada. É como se morressemos aos poucos e revivessemos a cada novo conjunto de remendos.
Maria, poderia não ser uma boneca de fato. Maria poderia ser apenas mais uma criança brincando. Ou nem ter existido. Maria poderia ser eu, poderia ser você, poderia ser ninguem. Porém, a boneca de Maria somos todos nós que nos recompomos, nos (re) construimos, que morremos, e ainda vivos a cada dia. Então lembre-se, as vezes é preciso poemas, aflições e pequenos sonhos junto de um punhado de tecido (de preferencia novo) para que possamos amar, acima de tudo, nós mesmas.
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