Júlio,
Quando se diz “eu te amo” para
alguem, você é enlaçado por sutis promessas e que uma delas
consiste em cuidar da pessoa que se ama. É por isso que eu não digo
“eu te amo” com a mesma frequencia que as pessoas por aí fora
costumam dizer. Por que sei que ao dizer isso faço a pessoa que
gosto acreditar que estou me comprometendo com promessas que na
verdade eu ainda não sei bem o que são. Ao dizer a alguem que você
a ama é dizer que vai correr risco. As vezes não sei se estou
preparada para percorrer tais aventuras, encarar tais monstros e é
nessas e outras que eu prefiro ter a garantia maxima do que estou
dizendo para que assim eu não machuque a pessoa que tanto prezo.
Qualquer pessoa ajuizada teria cuidado com essas palavras por que
normalmente sabem o que elas querem dizer ao contrário essas pessoas
seriam crueis. Por que tomar um coração para si e depois parti-lo
é, para mim, um dos atos mais crueis que o ser humano pode fazer. O
amor é acima de tudo tentar e fazer o seu melhor.
É por isso que eu não posso
acreditar que ela me ame, Júlio. Por que ela não tenta. Ela não
faz o menor esforço para me ver, me beijar ou sequer me telefonar.
Por que ela não corre riscos, por que ela prefere o conforto da
heterossexualidade do que uma possivel brecha de felicidade (não que
eu esteja prometendo tal, mas por que haveria possibilidades reais).
Quais seriam as chances disso ter dado certo? E quão tola fui ao
acreditar que poderia criar algum tipo de laço com alguem que nem
sequer estaria disposta a enfrentar o mundo junto comigo? Não
responda, eu sei o que sou. Alguem aqui na relação tem que saber
afinal.
E se me perguntar se ficarei amiga
dela em algum dia da minha existencia já aviso que a resposta não é
positiva. E então você me perguntaria “e nós? Não somos amigos?
Já fomos amantes”. Mas Júlio, você foi sincero comigo do começo
ao fim e terminamos nosso relacionamento como um tratado de paz em
que ambas as partes entederam de fato o que estava acontecendo.
Ela me enganou. E eu cai. Omitiu
fatos, preferiu a covardia do que me deixar a par do tipo de
enrascada que eu estava caindo. Me seduziu com palavras bonitas e
esqueci de notar se eram feitas de significados vazios, pequenas
promessas falsas, uma armadilha. Ela não teve a menor consideração
ou respeito por mim. Não conseguiu nem ser o básico: Honesta. Um
dia perguntei à ela se era perda de tempo esse nosso possivel
envolvimento e ela ficara chateada dizendo que eu a havia ofendido.
Era uma mentira em prol da covardia. E quando eu fiquei com raiva na
festa que fomos e não quis falar com ela, me disse que teria me
beijado em público. Mentira em prol da covardia! E eu cai. A paixão
que sinto por ela me deixou tão irracional que eu acreditava sem ao
menos deixar os olhos da racionalidade darem uma lida naqueles
contextos para ver se eu poderia ou não prosseguir. Mas para que né?
Eu gosto demais dela e confiava nela, julgava que a moça não
poderia me machucar e que tudo era um mal entendido de ambas as
partes. Como eu sou tola. E de fato ela poderia ter gostado de mim.
Sim, eu acredito nisso. Porém, ela nunca poderia ter me amado.
Compreendes, meu caro Júlio, por que
agora estou de coração partido? Não é fácil para a minha
senhoria se apegar a uma pessoa. E quando me apeguei, descobri que
era tudo uma jogada. E péssima jogada. Quero dizer, estava escrito
nos olhos dela que seria um problema. Ficar com ela era até contra
os meus principios, por que eu sei da minha sexualidade e sei também
que isso não interessa à ninguem a não ser à mim mesma, estar com
alguem que não sabe da sua sexualidade e que se importa de fato com
o que as pessoas vão falar é tão... contra tudo o que eu acredito,
tudo o que sou. Mas a paixão é burra, não é? Tola. Patetica.
Estúpida. Quando será que eu vou aprender?
Quer ler algo interessante? Eu nunca
chorei por você, Júlio e olha que te amei. Estou aqui, escrevendo
essa carta enquanto sou abordada por milhares de explosoes de
memórias que insistem em me mostrar os momentos bons que tive com
essa moça. Explosoes que me fazem lembrar cheiros, sentimentos,
beijos e carícias. Explosoes que me afetam de um jeito que qualquer
coração partido irá compreender. E essas explosoes acontecem
dentro de mim e se expressam como lágrimas.
Então se queria noticias minhas, meu
caro, aí estão elas. A última pessoa do mundo que você esperava
sofrer por uma [des]ilusão está aqui, chorando como uma criança
inocente por uma menina que não valia nem um suspiro sequer. Espero
que minha carta não tenha lhe deixado entediado e também espero
receber noticias suas em breve. Talvez eu faça uma viagem para lhe
ver, só você consegue me deixar nesse torpor de conforto e me fazer
esquecer qualquer boa moça em meu coração com risadas, boas
conversas e vinho.
Sua amiga,
Carla.
Nenhum comentário:
Postar um comentário