segunda-feira, 23 de abril de 2012

A menina dos olhos Parte 2

À caminho do show, o ambiente estava descontraído no carro, mas dentro dela havia um turbilhão de pensamentos sem lógica, fragmentos de memórias recentes carregados de emoções fortes que atingiam o peito com uma velocidade quase que arrebatadora. Ficara quieta o trajeto inteiro, as curvas levavam frases que a faziam ficar tensa “promete que não vai se apaixonar por mim?” e a cada sinal vermelho vinha um flashback “eu não me apaixonei pela sua voz”, do lado de fora a menina-mulher estava calada, nem uma palavra. Do lado de dentro parecia que estava em uma camisa de força lutando contra sua própria insanidade. A angustia deu lugar a raiva e o cenário do trajeto deu lugar as lembranças. A visão parecia embaraçada, precisava de um cigarro, precisava de um trago de bebida forte, parecia querer estar matando seu interior, seu lado doce e gentil, o lado menina.

Ela estava no meio da multidão, com amigos, bebidas, cigarros, ela estava rindo... parecia saber onde estava mas no fundo havia se perdido, sem saber que rumo tomar ou que caminho escolher, estava mergulhada em outro universo tentando juntar os pedaços dela que ali faltavam. Precisava encontra-la, precisava saber se estava tudo bem, queria acreditar que os pressentimentos eram alarme falso, era coisa de sua cabeça. Estava sufocada, sozinha. A cada pessoa que ia se juntar ao grupo a menina já se perguntava se não era ela e a cada rosto semelhante o coração já disparava. Dançava sozinha, uma dança pesada, lenta, forte, carregada de nostalgias, sua voz não saía, sua canção foi parando a cada verso, estava perdida nas estrofes, entre notas desconcertadas. O ambiente sumiu, não conseguia ficar em pé, queria se deitar no chão e ali ficar.

Fechou os olhos, se concentrou em voltar para o mundo real, aos poucos sentiu o cheiro do concreto, as risadas das pessoas, sentiu a musica que tocava, sentiu-se presa e quando acordou seus olhos encontraram os dela. O tempo parou e os segundos pareciam se tornar eternidades. Naquele momento não existiam pessoas, não existia musica, não existia chão. Existia dor. Se imaginou em um abismo e caindo aos poucos, chegou ao fim transformando as lembranças em realidades, sentimentos com racionalidade, fantasia em consciencia. Por que ao mesmo tempo que seus olhos se encontraram, os olhos também encontraram as mãos se soltando. Ela com outra. Respirou fundo, guardou a lágrima para depois e de menina-mulher voltou a ser guerreira.

  • Onde está a Tai?

  • Está ali com a Moara.

  • Com quem?

“A menina que você beijou se chama Moara, porra, Moara!” A menina levou um susto, houve exaltação. Tudo pareceu muito confuso e então virou um tiroteio. Ninguem ali sabia o que estava acontecendo, mas sabia a intensidade da cena. O tempo, tenso, começou a rodar devagar como se quisesse dar enfase aos detalhes que a memória depois tornaria a puxar. A guerreira então se encontrou com seu maior obstaculo. Você ultrapassa 500 barreiras e quer parar agora? Injusto. Infantil e extremamente desnecessário. Se cumprimentaram como se fossem velhas conhecidas que não se reconheciam. Olhar vazio, não sentia os toques, o dialogo parecia querer dizer algo que nem as duas sabia o significado enquanto isso a voz dela pesava em sua mente. Queria desabar, mas era forte.

  • Ta tudo bem?

  • Sim, só estou com dor... Estou sempre com dor quando você me vê, né?

A menina parecia procurar algum sentido naquela conversa, procurava em meio a olhares vazios um sinal, não encontrou. Então foi embora se despedindo seca, sem emoção. E vendo-a partir para longe não pode deixar de perguntar: o que está acontecendo? Ninguem soube responder, ninguem nem ao menos conseguiu digerir. Parecia então que aquela meia dúzia de pessoas viraram parte de um corpo só. E eles sentiram, não tão intenso quanto a menina, mas sentiram a dor de um coração partido.

Fingiu não acontecer nada, parecia não entender, até a hora que uma de suas amigas trouxe a noticia com convicção. Elas ficaram. E então tudo começou a fazer sentido, o soltar de mãos não foi por que eram grandes amigas e sim, por que eram amantes. Comecei a me perguntar por que deixei as coisas irem tão longe, tão fundo.

  • Você não ia me contar?!

  • Ia, mas mais tarde, não queria te ver assim.

Depois disso comecei a pensar em tudo. Desde o momento que a conheci até agora. “Se ela não se importa comigo a ponto de ficar com outra pessoa então por que soltar a mão? ” Remoía a pergunta e não encontrava resposta, não encontrava lógica. Prometi à mim mesma que não deixaria acontecer, que permaneceria forte, que colocaria mais e mais barreiras pra manter o sentimento distante e assim não sofrer. As lágrimas magoadas caíam junto com meus muros, me tornei vulneravel, frágil. Justo eu que fugi disso por tantos anos. Naquele momento não sabia em que pensar. Estava oca. Não senti o chão, as pessoas. Tudo que queria era entender em que momento perdi o controle. Parecia egoismo, podia até ser, mas porque deixei ela entrar na minha vida? Por que agora, dessa forma? As lágrimas não se continham. Um minuto de controle, um meio sorriso e lá estavam elas novamente, deixando claro mais uma vez que não adiantava negar. E se eu não tivesse dito “Gosto de você”, se tivesse parado antes mesmo de começar, se, se e se... Burra, estúpida. Não deixe que alguém entre em sua vida de novo, não sinta. É isso que acontece quando as pessoas se deixam levar. Me martirizava como se fosse resolver algo, como se a culpa fosse toda minha. Quis voltar atrás. Tarde demais.



Participação especial de Moara Ribeiro

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